Plano de acção

 Facilmente se constata que a agricultura há muito perdeu o papel estruturante de muitos espaços rurais do nosso país. A agricultura já não preside às relações económicas e sociais, nem se constitui como matriz identitária, capaz agregar as pessoas de uma determinada comunidade, estruturando mecanismos de pertença a partir do rural, do campo, do trabalho na terra, da criação de animais. Temos um espaço rural onde a agricultura já não constrói a paisagem. Temos um espaço rural em que palavras chave como ambiente, conservação na natureza e biodiversidade ganham novos significados, mas sem se perceber muito bem qual é a componente económica e de criação de riqueza que, como pilar, vai servir de sustentação a estes novos conceitos, não se sabendo se conseguirão estimular a presença de pessoas e evitar a desertificação. Falamos de espaços não naturais onde a acção do homem modelou, criou e impôs uma paisagem; são espaços humanizados onde natureza e presença humana criaram um novo sentido. A renaturalização será, decerto uma perda, mesmo daqueles valores que poderiam presidir a este objectivo. Acreditamos que não há espaço rural sem actividades agro-pecuárias e sem agricultura. Constatamos e vivemos estas mudanças, sentindo que as comunidades tiveram de deixar a aldeia para assegurar a viabilidade económiica das famílias. O abandono da agricultura tornou-se geradora de territórios desvitalizados, demográfica e economicamente empobrecidos, onde claramente se verificam falta de oportunidades, o que conduz ao êxodo das populações para as cidades vizinhas, entendidas como novas oportunidades.

Nestes cenários de empobrecimento social económico e cultural, torna-se imperativo a criação de estratégias para a revitalização dos referidos espaços, ao mesmo tempo que se promove a recuperação da auto-estima. É importante uma estratégia de desenvolvimento para a renovação da esperança, para um mundo rural próspero, onde a agricultura, mesmo que não dominante, afirme o seu papel e possibilite a projecção para o futuro de uma memória do território, viva e estimulante.

A Cooperativa Terra Chã, como organização de economia social e solidária, nascida numa aldeia de 150 habitantes, na Serra dos Candeeiros, tendo ao longo do seu processo de desenvolvimento reflectido as problemáticas que caracterizam o nosso espaço rural, quer deixar o seu contributo para  a continuação de um território vivo, onde agricultura, pecuária, ambiente, biodiversidade, sustentabilidade, culturas rurais, economia, sejam consideradas mais valias que enformem e definam a qualidade de um território socialmente coeso onde se goste e se possa viver.

 

1. Parcerias

Uma estratégia de desenvolvimento local deve envolver todos os actores (também na consideração de autores), desde a população, as instituições públicas, os órgãos autárquicos e as suas organizações. Neste contexto a parceria pelo território (além da Cooperativa Terra Chã), contempla:

- Direcção Regional de Agricultura de Lisboa e Vale do Tejo

- Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros

- Câmara Municipal de Rio Maior

- Junta de Freguesia  de Alcobertas

- Associações e entidades de desenvolvimento local

- Outras que acrescentem valor e sejam pertinentes na organização e estruturação de processo de desenvolvimento local

 

- Associações e entidades de desenvolvimento local

- Outras que acrescentem valor e sejam pertinentes na organização e estruturação de processo de desenvolvimento local

Como tal, a criação de uma estrutura de divulgação, debate e trabalho, neste caso denominada de “Comunidade Activa”, reveste-se de particular importância para o desenrolar deste processo de desenvolvimento.

Com a criação da “Comunidade Activa” pretende-se basicamente que as populações locais estejam a par do trabalho desenvolvido e a desenvolver pela instituição promotora do processo e onde possam ter “vez e voz”, expondo os seus problemas e procurando, sob entendimento geral, as melhores soluções ou alternativas.

 

2. Áreas de intervenção

Atendendo à realidade local e analisadas as suas mais valias, consideramos que existem várias áreas que poderão constituir uma matriz para estratégia integrada de desenvolvimento.

Apicultura

  • Produção de mel e de outros produtos da colmeia (própolis, pólen, veneno de abelha)
  • Apiário experimental para apoio aos apicultores (sanidade e reprodução de enxames)

 

Ervas aromáticas, condimentares e medicinais

 

Culturas tradicionais

- Reintrodução da cultura do chícharo

 

Turismo Activo/Natureza

  • Valorização dos recursos naturais e culturais
    • Paisagem
    • Geologia
    • Fauna e flora
    • Património rural
    • Gruta de Alcobertas (centro de interpretação subterrânea)
    • Potes Mouros
    • Dólmen de Alcobertas

 

3.1 Apicultura

 

Para além do valor económico da apicultura, esta actividade assume particular importância para a preservação de espécies protegidas, como se refere no Plano Zonal para as Serras de Aire e Candeeiros. O serviço biológico prestado pelas abelhas, com a polinização, favorece a preservação da flora espontânea local,  que, em alguns locais corre grandes riscos de delapidação.

 

Numa estratégia de valorização da apicultura, a Cooperativa “Terra Chã” desenvolveu uma acção de formação em Maio de 2004 (“Produtos da Colmeia”) e realizará a próxima a partir de Fevereiro de 2005 (“Multiplicação de Enxames e Sanidade Apícola”). A par das acções de formação, complementamos a nossa actividade de extensão rural, com visitas de estudo a projectos de apicultura (Associação “Pinus Verde” - Fundão e Lousãmel - Lousã).

No contacto com os apicultores da região foi possível constatar os problemas sentidos, discutindo-se, em várias reuniões, as possíveis soluções para os problemas de sanidade apícola, de falta de conhecimento, de estruturas e equipamentos apícolas e de comercialização, acontecendo a emergência do espírito associativo. A solução encontrada foi a criação de uma secção apícola da Cooperativa, a qual prestará apoio técnico aos apicultores, bem como, assegurará a promoção da marca e a comercialização do produto.

Ao mesmo tempo, pretende-se  que a estrutura a criar possibilite um percurso interpretativo do mel, capaz de receber visitantes e onde estes possam entrar em contacto com todo o processo produtivo, desde a “fábrica” (a colmeia e as suas operárias) até ao embalamento do mel e de outros produtos da colmeia. Esta nova possibilidade articula-se com a vocação da Cooperativa para a área do turismo de natureza.

Em relação ao produto final, pretendemos também ser pioneiros, criando diferenciação em termos de apresentação do produto, no mercado, segundo estratégias a definir (por exemplo, a embalagem do mel em doses individuais).

 

Secção Apícola “Terra Chã”

- Apoio técnico

- Criação de apiário experimental de desdobramento de colónias

- Construção de Central Meleira(Centro Interpretativo do Mel e da    Abelha)

Extracção do mel

Processamento do mel

Armazenamento

Rotulagem

Expedição/Comercialização

- Marketing

Criação de

Criação de folhetos

Participação em feiras e certames

- Extensão Rural

Visitas de estudo

Acções de formação

- Produtos

Mel

Própolis

Pólen

Veneno de abelha

Enxames

 

3.2 - Plantas Aromáticas, Condimentares e Medicinais

 

As ervas aromáticas constituem uma mais valia em termos produtivos para a região.

A colheita de algumas plantas aromáticas e medicinais pela população da Serra dos Candeeiros é uma prática corrente ao longo das gerações. No entanto, esta colheita, directa e indiscriminada de um dos tesouros da serra, tem delapidado um importante património natural. Como tal, urge tomar iniciativas que garantam a preservação deste património, podendo também proporcionar às populações locais mais valias económicas.

Atendendo ao cenário descrito e dada a rica flora existente, consideramos que esta pode e deve ser utilizada como um recurso pelas populações. Ao procedermos ao cultivo, estamos a preservar um importante património que nos foi legado pela Natureza em termos da biodiversidade local. Implementando o cultivo de espécies espontâneas e outras capazes de se adaptarem às condições locais, podemos proporcionar, através da comercialização, podemos garantir um rendimento extra às populações. Será, ainda uma actividade de “manutenção” e embelezamento da envolvente da aldeia, bem como uma alternativa ao abandono dos solos menos capazes, (onde nenhuma outra cultura seria possível), evitando ao mesmo tempo vários problemas, como por exemplo, a contínua erosão, em solos, por natureza, si esqueléticos.

Assim, a aposta no cultivo, transformação, embalagem e comercialização de plantas aromáticas, condimentares e medicinais é claramente viável.

 

Iniciativas no âmbito das plantas aromáticas e medicinais

- Criação de jardim de aromas

- Criação de campo experimental para produção de plantas

- Criação de local para secagem (secador) das plantas, embalamento, transformação e comercialização

Produtos

Plantas transformadas para infusões

Perfumes

Ambientadores naturais

Velas

Saquinho da Tecelagem + Ervas Aromáticas (estratégia de produto “2 em 1”)

Frascos c/ Ervas Aromáticas + Saquinho da Tecelagem (estratégia de produto “2 em 1”)

Packs - Saco da Tecelagem (Plantas Aromáticas + Infusões + Frasco Mel)

Publicação para apoio aos passeios temáticos, organizados pela Cooperativa na vertente do Turismo Activo/ Natureza (“Rota das Aromáticas”)

 

3.3 - Manutenção da paisagem

 

Esta manutenção da paisagem pode ser efectivada com a recuperação das chousas (estruturas locais onde as parcelas mais férteis eram delimitadas pelas pessoas através da construção de muretes de pedra solta), que constituem um dos mais definidos traços da actividade humana nas áreas serranas.

Numa perspectiva integrada, estes traços culturais podem ser mantidos pela reutilização das chousas para o cultivo das plantas aromáticas. Vários locais cultivados, funcionariam também como polo de atracção para a vertente de turismo natureza.

Para além das chousas seria criado um campo experimental para cultivo de plantas. Este campo experimental serviria numa fase inicial como apoio à componente prática de várias acções de formação e sensibilização, bem como de comercialização.

 

3.4 Criação do centro de interpretação subterrânea da Gruta de Alcobertas

 

A Gruta de Alcobertas, enquanto marca indelével em termos geológicos, biológicos e arqueológicos carece urgentemente da aplicação de medidas de salvaguarda e valorização que possibilitem a sua integração numa estratégia de turismo de natureza.

Senão vejamos, a geologia possibilita uma interpretação sobre a formação das serras calcárias, ao mesmo que permite a interpretação do ciclo da água num maciço calcário. No seu interior foi identificado um endemismo cavernícola (aranha). É também significativa a presença de morcegos. Foram ainda, descobertos artefactos e ossadas (humanas e animais) que remontam à era do Paleolítico Superior.

Dado que a gruta de Alcobertas é considerada um dos ex-libris da região, considerámos também importante, a recuperação e valorização da mesma no âmbito deste plano de acção integrado de desenvolvimento rural, associando-a ao turismo natureza.

 

3.4 Património rural

 

Em termos patrimoniais a aldeia de Chãos é bastante rica. Todo o património construído caracteriza claramente o modo de subsistência vivido localmente, evidenciando-se inúmeras adversidades, características das regiões serranas. Como exemplo, temos a arquitectura tradicional, caracterizada pelas casas de piso térreo e anexos exíguos e as construções directamente relacionadas com a produção agrícola (eiras, cisternas, covas de bagaço, etc), evidenciando toda a capacidade inventiva e de adaptação.

Neste âmbito, foi já dinamizado localmente um plano de intervenção financiado pela Subacção 7.1 da Medida AGRIS e que está a permitir a recuperação de algumas destas estruturas.

 

3.5 Reintrodução de culturas

 

A reintrodução da cultura do chícharo poderia servir de base à animação de uma série de eventos. Em termos turísticos e etnográficos, poderia servir para a recriação das “actividades de eira”, tradicionalmente efectuadas no amanho desta leguminosa.

 

4. Conclusão

 

Acreditamos que segundo uma estratégia concertada em todas as frentes apresentadas e com a envolvência de todos os actores enumerados, a região saíra beneficiada em temos de desenvolvimento cultural, social e económico.

Esta estratégia de desenvolvimento, passa em grande parte, pelo inverter dos papéis, colocando a nosso favor o que à partida seriam adversidades.

 

 

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